Carta 21

ANEXO - Carta 1 Pe. Franz Hörl

 

Pe. Franz Hörl, Paróquia de Nossa Senhora d"Abadia/Diocese de Anápolis
7 de março de 2008, Memória das Santas Mártires Perpétua e Felicidade

 

Somente agora tomei conhecimento dessa "Declaração" do Vigário-Geral, com os membros do Conselho Presbiteral, que se vira contra a minha "carta" (intitulada "Magistério em Diálogo"), de maio de 2005.

 

1) Qual foi o motivo para escrever e distribuir aquela "carta"?

1.1 Logo após ter assumido o Bispado de Anápolis, em agosto de 2004, Dom Frei João Wilk OFMConv. patenteou querer, não continuidade, mas ruptura radical e agressiva contra a "linha pastoral" do seu antecessor Dom Manoel Pestana, Bispo desde 1978. Por imposições rigorosamente não dialogadas, nem com o povo nem com o clero, de mudanças litúrgicas, contrárias aos hábitos da maioria dos fiéis e dos sacerdotes, Dom J. Wilk manifestou uma intolerância absoluta e uma intransigência férrea de padronização uniforme até aos menores detalhes.

1.2 Uma parte do clero diocesano, apoiando-se nos documentos do Magistério da Igreja, no Direito canônico e nas normas litúrgicas, pediu, por meu intermédio, um encontro de diálogo com o nosso sr. Bispo, em fevereiro de 2005.
Este, porém, se recusou, terminantemente, a nos ouvir!

1.3 Elaborei um estudo teológico-litúrgico-pastoral, contendo a argumentação referente aos nossos questionamentos à pastoral do sr. Bispo. Entreguei um exemplar à Cúria Diocesana para o sr. Bispo e outros aos sacerdotes interessados no assunto. Foi em março/abril de 2005.

1.4 Não houve nenhuma reação do sr. Bispo nem do Conselho Presbiteral, no sentido de conversarmos sobre as críticas e os argumentos apresentados. Foi por isso, que das 35 páginas do "estudo" fiz um resumo de duas páginas e meia, com a intenção de apresentá-lo na reunião do clero. Antes da reunião entreguei uma cópia ao sr. Bispo com o meu pedido de falar.
(Sob o pastoreio, pois, de Dom Manoel, nós tínhamos a liberdade de apresentar no plenário da reunião do clero, qualquer questão de relevância.)
Dom Frei João Wilk não me deixou falar! Deste modo tive que distribuir a "carta" na rua, após a reunião.

1.5 Como neste tempo até o atual se acumulassem mais "dúvidas", além das anteriores não respondidas, o nosso grupo de sacerdotes diocesanos, por meu intermédio, foi pedir, novamente, uma audiência de diálogo e esclarecimento ao nosso Bispo Diocesano, Dom Wilk, em novembro de 2007.

Não fomos dignos de nenhuma resposta!

1.6 E, certamente, com "boas razões". Pois os argumentos estão do nosso lado, enquanto D. Wilk só sabe agir autoritaria e despoticamente, desobedecendo à vontade do Papa e do Magistério.

2) As acusações da "Declaração" contra minha "carta"

2.1 Prova da falta de argumentos do Ordinário local é essa "Declaração".
Ela não contém nenhum argumento material, só condenações formais e maldizentes. Você acha nela alguma resposta ao nosso questionamento?

- Comunhão "em fila e em pé": é correto?
- Uso de mesa de comunhão: superado, proibido? (Aliás, Dom Wilk mandou arrancar mais uma da igreja-matriz da Paróquia de São Joaquim/Anápolis)
- Celebração "versus Deum": proibida? (O que fez o Papa, recentemente, celebrando uma missa pública, na Capela Sistina?)
- Missa Tradicional: pastoralmente, um horror? (E o "Motu Proprio" do Papa?!)

2.2 Nada disto na "Declaração" da Diocese! Nenhuma consideração concreta do conteúdo. Em vez disso, condenações verbais aparatosas, pompas de exageros! Imagine só, tudo quanto a minha carta apresentaria: inverdades, mentiras, juízos temerários, distorções, interpretações arbitrárias, manipulações, calúnia, difamação, falta de respeito...
Há quase três anos, o Bispo Diocesano, os Padres e a própria Diocese seriam vítima de tanta maldade minha! ("Que cabeça fértil em criar maldades!"—escreveu D. Wilk a meu respeito.)

2.3 Dita "Declaração", além do seu exagero verbal e da sua auto-compaixão, pretende impressionar, também, por sua longa lista de nomes, "abaixo-assinados", de padres e religiosos do Conselho Presbiteral, embora o teor dela deixe transparecer, claramente, a mão do bispo como autor do texto. Mais uma vez ele manda que os outros assinem para se esconder atrás do Conselho.

2.4 Em dezembro passado, os mesmos sacerdotes "conselheiros" foram obrigados a assinar uma carta, na qual sou acusado de ser um mau pastor de almas:
"Além disso, chegou ao nosso conhecimento que sua maneira de atuação pastoral tem afastado da Igreja fiéis da sua paróquia que eram de tradição católica." – escreveram para mim.
Como aqui, na paróquia, ninguém soube de tais afastamentos, fui visitar quatro dos membros do Conselho, pedindo explicação. Nenhum deles não soube dar nem a mínima informação a respeito. Em seguida, dirigi uma carta a todos os membros e ao Vigário-Geral, solicitando que me comunicassem, quais pessoas da minha paróquia, em quê circunstâncias e por qual atitude minha errada, ter-se-iam afastado?
Igualmente, e com "boas razões", não recebi nenhuma resposta. – É assim, agora, o tratamento entre nós, o clero de Anápolis que Dom J. Wilk polarizou ao extremo!

Aconselhou o líder revolucionário-bolchevista, Lênin: "Acusa os seus inimigos das coisas erradas que você mesmo pratica!"
Quem mente, acuse os outros de mentira; e quem calunia e difama, atribua esses pecados e "crimes" aos seus inimigos.

3) Conclusão

3.1 Eu e os demais sacerdotes do nosso grupo não somos rebeldes e nem refratários à orientação episcopal. Na falta de esclarecimento por parte do nosso Bispo Diocesano, acumularam-se dúvidas, especialmente quando os ensinamentos papais só podem ser interpretados a nosso favor.
Pelo contrário, nós, padres "conservadores" e "tradicionais" (que quer dizer: autenticamente católicos, apostólicos, romanos), estamos sendo difamados, caluniados e perseguidos em razão da nossa obediência à Santa Igreja e sua doutrina, liturgia, moral e disciplina em nome de uma discriminatória pastoral que mais se nos assemelha a uma voluntariosa ideologia!

3.2 Em vez de o Vigário-Geral com o Conselho Presbiteral despejar todo um arsenal de maledicências sobre a "carta", porque, simplesmente, não respondam-na?

 

Porém, quem me atribui "mentira", prove-o!
Espero, pois, do Vigário-Geral e dos membros do Conselho Presbiteral, que não tenham somente a coragem de publicar as suas xingações, mas também a de se mostrarem honestos e justos, respondendo aos questionamentos concretos da nossa carta "com argumentação objetiva, clara e equilibrada" (como ditos membros se expressaram numa carta "abaixo-assinada" contra mim.)

 

Estamos, pois, esperando que esses presbíteros e "colegas" – ou então, S. Exa. Dom João Wilk -, alguma vez, encontrem, também, verdadeiramente boas razões (i. é razões cristãs de justiça e de caridade), para responder e dialogar conosco, em vez de mandar, enfurecidamente, condenações.

UT AMOR AMETUR – não é isso?

 

Saudações em Cristo!

 

Pe. Franz Hörl

 

 

ANEXO - Carta 2 - Pe. Luiz Lima de Souza

 

Anápolis, 22 de novembro de 2006, memória de Santa Cecília, virgem e mártir.

 

Excelentíssimo e Reverendíssimo Sr. Dom João Wilk – Bispo de Anápolis

Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo e nossa mãe Mana Santíssima

 

Quero data vênia por meio desta requerer de vossa Excia., algumas explicações, concomitantemente fazendo algumas colocações. Poderia fazê-lo num diálogo filial vis à vis em linha vertical. Não obstante experiência de tentativas anteriores está a dizer-me que com vossa Excia isso é impossível, pois padre do meu feitio equivocadamente taxado de tradicional e antigo cheira mal nas narinas de vossa Excia.

 

Questões em pauta:

 

01)- Quem proibiu os fiéis de receberem a santa comunhão na boca e de joelhos? Isso é coisa sua ou é da Igreja Católica?

 

02)- Mostre-me um documento onde o santo Padre proíbe a santa comunhão de joelhos e na boca. Ouso fazer essas perguntas, porque vossa Excia desde que chegou aqui na diocese vem proibindo a santa comunhão de joelhos e na boca. Aqui na capela Santa Clara onde com a graça de Deus sou vigário paroquial há seis anos e meio, e, portanto onde o povo está acostumado a comungar de joelhos e na boca há seis anos e meio, vossa Excia nas duas missas que celebrou aqui, não deixou o povo ajoelhar, ficando de pé no lugar onde o povo é acostumado a ajoelhar. Assim, um bom número de fiéis foi constrangido a comungar de pé. Posso assegurar-lhe que o povo desta capela comunga de joelhos porque gosta e porque é expressão da sua profunda fé eucarística e não porque é obrigado. Em outras paróquias, vossa Excia demoliu as mesas da santa comunhão. Eu provo para o senhor com documentos o pensamento da Santa Igreja e conseqüentemente dos Santos Padres Papa Bento XVI e do Papa João Paulo II, a respeito da santa comunhão na boca e de joelhos. A seguir enumero alguns documentos, citando-os ipsis verbis.
 

a) – Comungar na língua…

… as prescrições da Igreja e os documentos dos Padres atestam copiosamente a máxima reverência e suma prudência que [nos tempos antigos] se tinha com relação à Sagrada Eucaristia, Pois “ninguém…come esta carne, a não ser que a tenha antes adorado” , e na recepção dela cada um é admoestado: “…recebe-o e cuida que nada se perca”:” pois é o Corpo de Cristo”.

…depois de a verdade do Mistério Eucarístico, sua força e a presença de Cristo n” Ele ter sido mais aprofundada, a compreensão mais profunda tanto da reverência para com este Santíssimo Sacramento, quanto da humildade com que se deve recebê-lo, levou ao costume de o ministro mesmo colocar o Pão Consagrado na língua do comungante.

-” Esta maneira de distribuir a Santa Comunhão. Levando em consideração no seu conjunto a situação atual da Igreja, deve ser conservada, não somente porque” se funda numa tradição de muitos séculos, mas sobretudo porque exprime e significa a reverência dos fiéis para com a Eucaristia.
E este costume não diminui em nada a dignidade da pessoa daqueles que se aproximam de tão grande Sacramento; antes, faz parte daquela preparação que é requerida, para que o Corpo do Senhor seja recebido com maior fruto possível.
(S. Congregação para o Culto Divino, Instrução “Memoriale Domini” – Sobre a maneira de distribuir a Sagrada Comunhão – 29 maio de 1969: Notitiae (1969) 347-351).
 

b) – Comungar de joelhos…

De fato, como Sua Eminência, Cardeal Josef Ratzinger recentemente enfatizou, a prática de se ajoelhar para a Santa Comunhão tem a seu favor uma tradição plurissecular e é um sinal particularmente expressivo de adoração, inteiramente apropriado à luz da presença verdadeira, real e substancial de Nosso Senhor Jesus Cristo sob as espécies consagradas.

A Congregação… considera cada negação da Santa Comunhão a um dos fiéis, por causa de sua postura de joelhos, de ser uma violação Qrave de um dos direitos mais básicos dos fiéis cristãos, nomeadamente daquele de serem assistidos pêlos seus pastores através dos sacramentos (Código do Direito Canónico, cânon 213).

Mesmo lá onde a Congregação aprovou a legislação em que declarou o estar de pé como posição para a Santa Comunhão, de acordo com as adaptações permitidas às Conferências episcopais… o fez assim com a estipulação de que a fiéis que comungam, e escolhem de ajoelhar, não deve ser negada a Santa Comunhão por estes motivos.

(S. Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, carta de 1 de
julho 2002; Notitiae (2002), 582-585).

 

c) – Não é licito negar a santa comunhão a um fiel pela simples razão, por exemplo, de que ele queira receber a Eucaristia de joelhos ou em pé.

(S. Congregação para o culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Instrução Redemptionis Sacramentum.

Sobre alguns aspectos que se deve observar e evitar acerca da Santíssima
Eucaristia). (Página 56, N° 91)

 

d) – Jamais se obrigará algum fiel a adotar a prática da comunhão na mão. Deixar-se-á a liberdade de receber a comunhão na mão ou na boca, em pé, ou de joelhos.

(Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil 2006. Ano B. São Marcos). (Pag. 23, N° 07).

 

e) – E o Papa atual, Bento XVI, quando Cardeal, escreveu no seu livro sobre o Espírito da Liturgia: “Há círculos com bastante influência que tentam dissuadir-nos de nos ajoelhar. A argumentação é a de esse ato não condizer com a nossa cultura, não ser adequado para uma pessoa reta e emancipada que encara Deus, ou então de não ser apropriado para uma pessoa que tem sido salva e que, através de Cristo, se tornou uma pessoa livre, não necessitando conseqüentemente, de ajoelhar-se”.

A origem da genuflexão é proveniente da bíblia e do seu conhecimento de Deus. O gesto físico representa um sentido espiritual – precisamente da adoração, sem a qual ele não teria sentido: o ato espiritual, por sua parte e consoante à união físico-espiritual da pessoa, deve necessariamente expressar a sua natureza no gesto físico. A posição de joelhos é absurda enquanto mera exterioridade, mero ato físico, mas se alguém tentar reduzir a adoração ao âmbito espiritual, sem a personificar, o ato da adoração apaga-se; porque, na realidade, o espírito por si só não corresponde à natureza do ser humano. A adoração é um dos atos fundamentais que dizem respeito ao homem inteiro. Conseqüentemente, dobrar os joelhos perante a presença de Deus vivo é irrenunciável.

A Genuflexão significa rebaixar a nossa força perante Deus vivo e reconhecer que tudo o que somos e temos promana dele. A posição de joelhos não é apenas um gesto cristão, mas também um gesto cristológico. ( Hino de Cristo Fl. 2, 6 — 11)

 

f) – Disse o Papa João Paulo II:

“Portanto, todo gesto de mostrar o respeito, cada genuflexão diante do Santíssimo Sacramento é tão importante, porque é expressão de fé e de amor a Cristo. Diante de Deus, só podemos estar numa posição de adoração humilde alegre, dobrando os joelhos”. ?

 

Da análise desses documentos ficaram patentes três conclusões:

a) – A Igreja não obriga ninguém comungar de pé nem na mão;

b) – A Igreja não proibiu a nenhum fiel comungar na boca e de joelhos;

c) – A Santa Igreja deixa ao fiel o direito de escolher.

 

Se alguém em alhures tolhe a qualquer fiel o direito de comungar de joelhos e na boca, essa proibição tem um nome: “abuso de autoridade”. Ora, se a Igreja não proibiu a santa comunhão de joelhos e na boca, como é que vossa Excia se arroga o direito de proibi-los?

O Papa Bento XVI disse a respeito da santa comunhão de joelhos: “é um sinal particularmente expressivo de adoração” etc.

Essas e outras constatações levam-me a concluir que vossa Excia parece está em discordância “Cum Petro”. Constatação essa que me desorienta, pois como padre e, portanto menor que vossa Excia na hierarquia eclesiástica, devo ter no meu bispo um modelo irrepreensível de obediência e fidelidade à Santa Igreja. Como é que o senhor cobra de mim obediência à Igreja, sendo que vossa Excia só obedece à Igreja naquilo que combina com sua linha pessoal?

A primeira reunião com o Clero de Anápolis vossa Excia iniciou dizendo exatamente assim: “deponham as armas”. Como se se tratasse de uma guerra onde há vitoriosos e derrotados. O seu modus faciendi e loquendi não deixam dúvidas de que vossa Excia veio decidido a devastar tudo o que foi feito pelo bispo anterior, Dom Manoel Pestana Filho, que construiu esta diocese com fadigas e lágrimas.

Eu que fui ordenado nesta diocese, e aqui estou há vinte e cinco anos, vejo com profunda tristeza a divisão que vossa Excia provocou no meio do clero. De um clero unido que éramos, somos hoje um clero dividido. Aqueles que aderiram à linha de vossa Excia são elogiados e sempre bem vindos. Nós, que caímos na desgraça de vossa Excia, somos recebidos com desconfiança e como visita indesejável. Quando por alguma razão vamos à sua casa, não somos convidados nem para sentar. Somos tratados como padres estranhos, exóticos e esquisitos.

De conformidade com o que ficou patenteado nos documentos em questão, nem bispos, nem padres, podem estabelecer uma norma única na sua diocese ou paróquia a respeito da recepção da santa comunhão.

 

A respeito do uso da patena.

É preciso que se mantenha o uso da patena para a comunhão dos fiéis, a fim de evitar que a sagrada hóstia ou algum fragmento dela caia. (Congregação para o culto divino e a disciplina dos sacramentos – Instrução Redemptionis sacramentum – sobre alguns aspectos que se deve observar e evitar acerca da Santíssima eucaristia – Página 57, N° – 93).

 

Posição do corpo na Santa Missa

 

Vossa Excia proíbe que os fieis ajoelhem na Santa Missa. Aqui nestas capelas há vários anos temos o costume de ajoelhar em determinadas partes da Santa Missa. Veja o que diz a Introdução ao Novo Missal:

Onde for costume o povo permanecer de joelhos do fim da aclamação do Santo até o final da oração eucarística e antes da comunhão quando o sacerdote diz Eis o Cordeiro de Deus, é louvável que ele seja mantido. (Instrução geral sobre o Missal Romano – Pag. 37)

No primeiro retiro do clero de Anápolis feito com vossa Excia, o senhor ordenou aos seminaristas presentes na santa missa, deles mesmos pegarem a sagrada comunhão e o sagrado cálice e comungarem. Pelo contrário a Igreja assim se expressa: Não é permitido aos fiéis “pegarem por si e muito menos passarem entre eles de mão em mão a sagrada hóstia ou o cálice sagrado”.

(Congregação para o culto divino e a disciplina dos sacramentos – Instrução Redemptionis sacramentum – sobre alguns aspectos que se deve observar e evitar acerca da Santíssima eucaristia. Página 57, N° 94).

 

3) – E as famosas missas sertanejas, celebradas na pecuária, certamente com sua permissão. São aprovadas .pela Santa Sé? Eu mesmo dou a resposta: não. A Santa Sé proibiu essas missas. Então, sua autoridade está acima da Santa Sé?

Nos meus 25 anos de sacerdote passados com o bispo anterior, nós, sacerdotes, nunca o vimos transgredir uma disposição da Santa Igreja por menor que fosse. Vossa Excia está retirando das paróquias os padres que não caíram na sua graça e jogando-os na diáspora. Uns para um lado e outros para outro, como judeu errante. Sua estratégia é colocar na masmorra todos os padres que são mais ou menos uns 12, que caíram na sua desgraça, ou então desterrá-los para paróquias nos cafundós de Judas e trazer outros padres de fora. Não há necessidade de um raciocínio acurado para concluir que esse fato é consequência da famosa frase inicial, pronunciada ex abrupto: “deponham as armas”.

 

Como é meu costume oscular as mãos de padres e bispos, fui beijar as suas. Vossa Excia retirou a mão grosseiramente, quase machucando os meus lábios.

 

E por esse mesmo motivo já houve reclamações de muitas pessoas. Por acaso suas mãos não foram ungidas para abençoar? Sem falar que já ouvi várias reclamações de pessoas que receberam de vossa Excia conselhos errados.

 

Gostaria de convidar vossa Excia a fazer uma reflexão mais profunda e minuciosa sobre a responsabilidade do múnus episcopal. Faz-se necessário ponderar sobre os significados das insígnias episcopais das quais vossa Excia faz uso: báculo, mitra, cruz peitoral, anel. Etc. Esses símbolos não são enfeites, encerram responsabilidades.

 

A ferro e fogo debalde e contumazmente vossa Excia vem tentando metamorfozear-nos em modernistas. Cada tentativa, porém, é uma nova frustração, pois temos convicção do que aprendemos no tirocínio de nossa formação. A miúdo vossa Excia nos repete: “Eu sou o bispo da diocese”. Cabe aqui lhe lembrar caro senhor bispo, uma das máximas de um sábio: “Uma só coisa amacia as arestas dos indivíduos. Esta por certo não é a lei, não é a autoridade, mas a caridade de Jesus Cristo”. Vossa Excia se recusa a qualquer diálogo conosco, mas de longe nos joga pedras e invectivas.

 

Estou aberto a um diálogo num clima de respeito mutuo e busca da verdade de um maior com um menor hierarquicamente falando, mas não na dignidade de filho de Deus. Por ocasião de sua visita nesta Capela de Santa Clara vossa Excia deu nítidos sinais ao povo de não apoiar a minha atuação pastoral. Deus recolha, no vaso da sua misericórdia, os gemidos de um pobre que chegando neste rincão, mais do que um Recanto do Sol encontrou um recanto de drogas, prostituições, roubos, traficâncias e crimes. Etc.

 

Sete anos depois, continua sendo um recanto de tudo isso. Mas também é verdade que é um Recanto onde se adora Jesus Eucarístico todos os dias das 8:00 h da manhã às 20:00 h. Estamos completando quatro anos de Cerco de Jericó, cada mês são sete dias e sete noites ininterruptos de adoração. Homens e mulheres que viviam nas bebedeiras, prostituições, muitos deles até nas drogas, batendo na família, encontraram um novo sentido para suas vidas, graças aos encontros masculinos e femininos realizados. Transformaram-se em católicos praticantes e adoradores do Santíssimo Sacramento.

 

É um Recanto onde através do Lar Nossa Senhora Mãe dos Pobres, no mínimo 80 pessoas são alimentadas todos os dias. As crianças recebem três refeições por dia, recebem aulas de alfabetização, reforço escolar, são introduzidas na vida de oração e catequizadas.

 

As meninas aprendem trabalhos manuais, tricô, bordado, croché. Os adolescentes estudam música, compondo assim a banda musical Maria Mãe da Igreja e assistem às paróquias nos eventos religiosos. Alguns alunos da nossa escola estão empregados nas bandas de música da policia militar e da prefeitura. Às senhoras pobres, oferecemos curso de corte e costura. A nossa entidade oferece ainda aos pobres: cestas de alimentos, remédios, roupas, calçados. Etc. Até curso de informática chegamos a oferecer aos nossos alunos.

 

Não raro, homens e mulheres, dizem-me às vezes com os olhos rasos de lágrimas: Eu fui uurado, curada na sua missa. Ou, o senhor mudou a minha vida com as suas pregações. Sem mencionar os muitos batizados que fiz de crianças e adultos de 20, 30, 40 e até 70 anos de idade. Muitíssimos casamentos de pessoas que viviam irregularmente só amigadas ou só civilmente. Primeiras comunhões, confissões, crismas. Etc. Nada disso é visto porque como disse alguém: “Os sentimentos sempre pesam na balança doe julgamentos humanos”.

 

Sua vinda para Anápolis, foi um grande prejuízo intelectual e, sobretudo espiritual para o clero, para o povo de Deus e à diocese em geral. Prejuízo intelectual, porque vossa Excia como militante do modernismo é muito confuso em suas afirmações. Demonstra com isso uma cabeça cheia e não formada. Prejuízo espiritual, porque vossa Excia desde que aqui chegou, vem solapando todo sentimento religioso, devoto e piedoso que existe nesta diocese. È notável sua acirrada repulsa por tudo aquilo que é santo. Em uma das primeiras reuniões do clero com o senhor, vossa Excia disse: “Não falem muito do diabo. Deixem o diabo quieto.” Pelo contrario a bíblia diz assim: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demónio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé.” ( l Pedro 5, 8 – 9). Essa expressão anda ao redor no sentido grego, indica ação continuada. Significa que o demónio não tira férias. Sem fazer do diabo o único conteúdo da nossa pregação, como é que nós vamos deixá-lo quieto ou não advertir os fieis desse inimigo feroz? O próprioJesus falou 38 vezes no evangelho sobre o inferno. E o inferno não existiria se não existisse o demónio. Saiba vossa Excia, que dia 03 de janeiro de 2007, retirar-me-ei das Capelas Santa Clara e São Lucas, onde estouif^ sete anos, não porque eu queira, mas porque vossa Excia está me subtraindo pêlos cotovelos. Prefiro evadir-me que contemporizar com um estado de coisas, que não condizem com as disposições da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

 

Outrossim, é bom que vossa Excia saiba o seguinte: Um bom número daqueles sacerdotes que parecem concordar com vossa Excia, se forem coerentes consigo mesmo e com a formação que receberam, são forçados a admitir que estão fingindo.

 

Dia 08 de dezembro completarei 25 anos de sacerdote .e 25 anos de vida paroquial. Agradeço a Deus pelo bem que me permitiu fazer e retiro-me de ëeíia para voltar sabe Deus quando!

 

Creia vossa Excia, eu não me comprazo em escrever cartas nestes termos. Mas se a escrevi, fui forcado pelas circunstancias dessa guerra fria provocada pelo seu modo não leal de agir. Numa entrevista na rádio Voz do Coração Imaculado, vossa Excia falou que logo que eu saísse criaria a paróquia. Mais um autêntico sinal da nenhuma consideração à minha pessoa. Quando um sacerdote, insatisfeito com a atual situação pede-lhe um diálogo, vossa Excia se recusa a concedê-lo e convida-o a retirar-se da diocese. Será essa a melhor solução? Sabe Deus qual será o desfeche desta queda de braços. Oxalá tudo se dilua num sadio entendimento e a tempestade dê lugar à bonança. Talvez um leitor desinformado, me qualificaria de rebelde, desobediente. Eu lhe diria: A obediência fingida vira subserviência e a subserviência gera hipócrita e não santo.

 

Quero concluir esta carta assim: Estou disposto a continuar cumprindo a promessa de obediência ao bispo. Contanto que o bispo esteja em perfeita comunhão com a Santa Igreja Católica Apostólica Romana e com o Santo Padre o Papa.

 

Pe. Luiz Lima de Souza, Sacerdote diocesano